A primeira questão que se coloca em um momento como esse no Rio de Janeiro é como fomos chegar a esse ponto? Como foi possível chegar a um ponto da cidade de que há a completa inexistência do estado? Como foi possível que deixássemos que isso ocorresse? E quando me refiro a nós digo em relação ao Estado propriamente dito e a população através das eleições e de manifestações? De que maneiras esse silêncio de ambas as partes veio eclodir na situação que enfrentamos nos dias de hoje? De que forma esse contrato implícito veio a acontecer? Perguntas interessantes, pois na comunidade existiam fabrica de munição, drogas e um mini hospital para os marginais, ou seja, não é de “agora” que o problema existe.
Desta forma posso afirmar que a sociedade criou uma dívida com ela mesma. Em algum momento toda dívida é cobrada. Vidas, destinos e sonhos são corrompidos e destruídos por essa dívida que criamos para nós mesmos.
Esse cenário, que vimos no complexo do Alemão, não é muito diferente das centenas de comunidades carentes do Rio de Janeiro.
No entanto, com a introdução das UPP em algumas comunidades da cidade e com o método de ação que não enfrenta os bandidos, mas sim os expulsam sem que ocorra um combate. Deste modo fica clara a questão de que esses bandidos não sumiriam e que em algum ponto a situação iria piorar sensivelmente. No entanto tem que se ressaltar que a tomada de território por parte da polícia sem derramamento de sangue em uma área densamente povoada é uma virtude a ser ressaltada.
Agora o que há por trás dos eventos desses dias? Acho que de uma forma ou de outra o governo e a sociedade começou a pagar a dívida que tinha com ela mesma. No entanto, as cenas de filme de guerra (ou alguém vai dizer que ver tanque de guerra nas ruas é normal?) e a idéia de que essa dívida a ser paga não seria “indolor” (depois falam que votos errados não custam vidas?) fazem com aumente-se o pânico sensação de segurança na população simplesmente desapareçam. Isso aliado ao histórico não muito “gracioso” e da fama das ações da força policial no Rio de Janeiro.
No entanto, em um momento em que a situação parecia piorar de vez, a população até então “acostumada” com a presença da bandidagem mostra um apoio até então inédito para as ações das forças policiais/armadas. Isso é um grande ganho em questão de consciência da população.
Outro ganho dessa situação é a atuação ainda que não completamente coordenada das forças armadas, polícias civil, militar, rodoviária e federal na ação. Atuando em conjunto. Coordenar tantos agentes, tantas agências e por que não tantos egos de comandantes não é tarefa fácil e muito provavelmente ainda teremos erros. No entanto, começar a realizar essas ações em conjunto pode dar uma experiência que pode servir de modelo para ações de segurança pública no país. Coordenação para usar o que cada agência tem de melhor.
Ou seja, apesar de tudo, vejo dois pontos positivos: a sociedade parece estar disposta a pagar a dívida com ela mesma e a coordenação entre as forças do estado.
No entanto um problema de décadas não pode ser resolvido de uma hora para a outra. As UPP têm dois anos de vida e essa ação que estamos acompanhando deve ser duradoura ainda. Nada é resolvido automaticamente. Uma das melhores frases é que “Não existe vácuo de poder”. Os bandidos assumiram o poder onde o estado se omitiu e agora o estado começa a recuperar esses espaços. No entanto isso não ocorrer de uma hora para outra e é um processo de, no mínimo, médio prazo. Só para citar Tropa 2, do início do filme até o ponto em que o tráfico estava sufocado e a milícia tomava conta se passaram 4 anos no filme. Período de muito trabalho e de muita inteligência nas ações. Após um início forte, de postura forte por parte do estado, será necessária muita inteligência para seguir adiante no processo de ressurgimento do Rio de Janeiro.
Trecho da participação do José Padilha em debate no programa Estúdio I, da Globo News:
ResponderExcluir"As imagens que a gente viu ontem expuseram o tamanho do problema que a gente tem pela frente. Mas não acho que tenha sido o Dia D. O Dia D será quando tiver um plano de segurança sério", disse Padilha. "Vai custar caro, a Olimpíada e a Copa do Mundo vão forçar a resolver, mas tem um perigo: é a gente achar que está numa guerra só contra o tráfico, o que não é verdade. A polícia não está reformada. A reforma custa caro, demora e não pode ser feita só pelo governo do estado. É preciso um plano nacional de segurança"
"O projeto das UPPs vai gerar sempre esse tipo de evento. Esse projeto tem de ser pensado muito seriamente. É correto, é obrigação do estado tirar o tráfico armado das comunidades carentes, mas o estado está colocando quem no lugar dos traficantes? A polícia. E o que garante que esse esforço não vai substituir o domínio do tráfico pelo domínio das milícias?"
"Existe um apoio da população, uma iconização de um personagem particular, que é o Capitão Nascimento, que representa um policial 'honesto' [aspas dele], que não se corrompe, que resiste ao processo da instituição, mas se torna violento e abdica do respeito aos direitos humanos, tortura e mata. O apoio a ele acho que é reação ao estado das cosias, ao sofrimento de viver numa favela e ser domindao pelos traficantes. Mas não acho que a gente deve ver como bom o fato de o Rio ter um Batalhão de Operações Especiais como o Bope, isso não é bom."
E completou, mais adiante, citando uma frase usada no trailer de "Tropa 2": "O Bope foi transformado em uma máquina de guerra na vida real. E eu não me orgulho disso."
É isso,o Estado tem o poder mas só toma providências por interesses,a culpa é tão nossa ou os valores estão distorcidos?