Um passeio, um tanto aleatório, nos últimos 16 anos
Depois de ser acusado de ser simplista, tentarei colocar o meu ponto de vista do que ocorreu nesses últimos 16 anos em economia. Vamos lá...
Economia é uma ciência social. Isso faz com que ela tenha algumas características que qualquer análise sobre qualquer coisa não pode deixar de ter como pano de fundo. No meu ver eu tenho a impressão que os conceitos de path dependece, cumulatividade e complexidade.
O primeiro deles “Path dependence is the dependence of economic outcomes on the path of previous outcomes”. Ou seja, algo em economia é resultado em parte de um processo contínuo, histórico e gradual. Essa trajetória com isso impõe algum grau de inercialidade na trajetória futura em que a economia irá desempenhar. O segundo, cumulatividade, me diz que estando em uma trajetória, as ações realizadas hoje são em parte reflexão das suas decisões e das outras anteriormente realizadas. De um modo que as decisões não são independentes no tempo e contexto as quais estão inseridas. E por fim, a complexidade na economia, me traz a noção de que nada é totalmente possivelmente explicado e determinado por um modelo de tal modo que a+b=c em 1999 e a+b=d em 2008 é perfeitamente possível.
A idéia geral dos comentários abaixo é mostrar que essas três características fazem com que qualquer propaganda política no melhor estilo “no meu governo eu fiz mais que você no seu” e “eu fiz no estado mais do que você devia ter feito pelo país” é extremamente cheia de ruídos e em muitos momentos simplória. Por isso gostaria de pedir, e é o que eu to tentando fazer, analisar propostas, sem ideologia, para decidirmos o que é melhor, em temos de proposta, para o futuro do país. E não fazer um julgamento histórico FHC x Lula, pois este apresenta dois problemas: um é que não temos o distanciamento histórico para julgar, logo a análise está prejudicada e o principal, não será nenhum dos dois que estará sentado na cadeira de presidente a partir de primeiro de janeiro. Ou seja, tanto o Serra quanto a Dilma, pelo simples fato de serem pessoas diferentes farão governos diferentes que seus “padrinhos” políticos.
Nos últimos 16 anos saímos de uma situação de fraqueza por parte do estado, baixo dinamismo econômico, inflação e pouca relevância no cenário internacional.
Macroeconomicamente falando, iniciaram-se com um câmbio fixo, metas de inflação e superávit primário. Tivemos nosso primeiro grande sucesso com a inflação. Depois começou um debate sobre por quais que o Brasil não cresceria. Isso já se constatava um grande avanço. Fazia 20 anos que o Brasil não crescia e só se falava em inflação que até o debate sobre o crescimento tinha minguado. Abrindo um parêntese, livro muito bom: “Por que que o Brasil não é um país de alto crescimento?” Até que o Brasil de fato começou a crescer, principalmente no final do segundo governo Lula. Nesse rápido resumo sobre inflação e crescimento, pelo menos eu tenho a impressão de uma trajetória bem definida, com grande cumulatividade das ações. Se no passado crescíamos com pressão inflacionária, neste momento com o plano real foi decidido primeiro acabar com a inflação. Era o nosso “monstro” da vez. Após isso, em cima de uma inflação controlada passou-se a ter um debate em relação ao crescimento econômico. Que é o “monstro” da vez. Ou seja, estaríamos hoje discutindo crescimento, geração de emprego e outras coisas mais se não tivéssemos controlado a inflação? Fazer a pergunta contra-factual é sempre bom. Fica claro, pelo menos pra mim, que a cumulatividade se fez presente em uma trajetória na economia brasileira. E com isso, qualquer comparação simples (ou melhor, simplória) prejudica a formação de opinião.
A grande “inovação”, em termos de política econômica, do governo Lula foi o foco de uma política social clara e focada. Não vamos esquecer que o combate a inflação foi disparado a maior política social do governo FHC. A inflação do modo que estava se configura como o maior e mais perverso imposto sobre os pobres. Um imposto regressivo, ou seja, que os pobres pagavam proporcionalmente mais que os ricos. Piorando assim a distribuição de renda. Os ricos podiam se defender da inflação com acesso a bancos, por exemplo. Combate a inflação não é por si só uma política social e é justificado por outros argumentos de ordem econômica. Mas não vou entrar neles. Mas não podemos deixar de observar esse impacto social do combate a inflação. Voltando a política social. Com uma política social forte, o governo atacou um dos grandes problemas do desenvolvimento de longo prazo do Brasil. A distribuição de renda. Com um crescimento de renda mais dinâmico dessa parte da população, a ponto de melhorar a distribuição, introduzíamos uma nova fonte de crescimento na sociedade. As classes mais pobres começavam a ter renda que lhe dava acesso ao consumo, que gerava produção, que gerava empregos, e por aí a roda da economia vai em frente, ou seja, crescendo. Temos então uma trajetória, uma cumulatividade, aonde ambos os governos tiveram méritos. Méritos muito diferentes, mas inegáveis do ponto de vista social e econômico.
Mudando o rumo em 180 graus e falando de crises econômicas que ambos os governos enfrentavam. No segundo governo FHC, dos quatro anos de governo em três deles tivemos crise. E no único que não teve o país cresceu a 5,4% (se eu estiver errado nessas informações, por favor, me corrijam). Nas três crises tivemos um contágio via cambio fixo, reservas, e ataque especulativo que impactou internamente a crise até então fora do país. Com isso a crise encontrou um meio de entrar nas “engrenagens” da economia brasileira. Vamos lembrar que o câmbio (ainda tem acento isso depois da reforma ortográfica?) fixo era um dos pilares do combate a inflação. Um dos debates sobre isso é se demoramos demais a flexibilizar o câmbio, de modo a ter evitado o que ocorreu. Mas a preocupação na volta de inflação fez com que esse câmbio fixo fosse mantido até aonde deu. Em suma, crises que conseguiram de certo modo se endogeneizar na economia brasileira.
A crise enfrentada no segundo governo Lula foi o maior decable desde 1929. Uma crise originária nos EUA e que se alastrou fazendo com que países chegassem a ter um crescimento negativo de incríveis 15% no seu PIB. No entanto, enquanto uma crise fora do Brasil, essa última crise encontrou um país mais sólido. O câmbio não seria mais problema. Já que estava em regime flexível (dirty floating), as reservas internacionais estava recompostas (elevação do comércio internacional e em especial as commodities internacionais fizeram com que saldo comercial e juros nas alturas fizeram entrar dólares que a atuação do Bacen fez com que se convertessem em reservas), com consumo interno em alta.
Nesse ponto abrirei pontos: o primeiro é que o sistema bancário/financeiro do Brasil está fechado em relação ao exterior, no quesito de não ter muitas operações com o epicentro da crise e está bem oligopolizado. Engraçado que essa estrutura de mercado foi estimulada pelo FHC com um PROER (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional) programa que recebeu muitas críticas. Justas ou não é outra coisa que não vou me meter. Mas que fortaleceu o sistema nacional. Hoje em dia, quantas notícias não ouvimos sobre os lucros dos bancos. Estes obtidos internamente. Ou seja, o sistema estava fortalecido internamente e por uma não exposição direta a crise. Não existiam ligações financeiras do centro da crise com as instituições que operam no mercado interno. Com isso o Brasil estava “protegido” contra uma endogeneização da crise. Esse foi um ponto de não contágio do Brasil. Certamente amorteceu em muito os impactos da crise no Brasil. A nossa trajetória do setor, ações somadas uma as outras, mais uma vez nos mostrou a importância da trajetória. Do outro ponto de vista da crise estava o governo que de um modo geral tinha duas frentes para enfrentar a queda de atividade econômica da queda das importações e da escassez de crédito internacional natural que as empresas enfrentaram: Ou era com aumento de investimentos ou com política monetária expansionista. O primeiro teria preferência. Mas vamos lembrar que fazer um investimento, um porto, por exemplo, demanda tempo. Planejar, licitar, investir e de fator ter um impacto leva tempo. Sem contar que isso requer dinheiro propriamente dito por parte do governo. Então sobrou a política monetária. Muito bem conduzida exceto no fato que os juros poderiam cair mais rapidamente. Uma crítica de grau das medidas tomadas. E incrivelmente, a política social do governo ajudou. O crescimento de consumo das camadas mais pobres fez com que, em um momento de crise, a roda da economia interna não parasse de girar. Mas política social contra a crise? Ta aí a complexidade que disse no inicio. Quem diria que uma ação “em pró dos bancos capitalistas” no governo FHC e da política social do governo Lula iriam atenuar os impactos da crise. Fazendo novamente a pergunta contra-factual, e o setor financeiro estivesse mais ligado internacionalmente? E se estivéssemos ainda com inflação ou sem essa política social? O impacto provavelmente teria sido muito maior. O governo tem seus méritos, claro e evidente. Mas precisamos fazer uma análise menos simplista e mais relativista da coisa.
Em torno da questão de privatização, repudio sinceramente esse debate simplista de “você é de direita, privatiza e vai pro inferno” e “Eu sou de esquerda, tenho amor ao povo e a soberania nacional e vou pro céu”. Muito simples para a lógica econômica e do ponto de vista de estratégia de desenvolvimento do país. Penso que nenhuma privatização é igual à outra. Principalmente pelos benefícios econômicos do setor a ser privatizado (por exemplo, privatizar os correios é igual a privatizar o petróleo) e o papel do setor em uma perspectiva de longo prazo para a estratégia de desenvolvimento do país, verificar se o setor/empresa faz parte de um monopólio natural (podemos ver a diferença clara no resultado da privatização da telefonia móvel x fixa), e a capacidade de gestão e investimento do estado, e na ponta do lápis, tenta estimar benefícios e prejuízos de uma empresa estatal: do ponto de vista que, por exemplo, a vale do rio doce subsidiava aço para outros setores. Tomava prejuízo com isso e o tesouro cobria. Isso vale a pena ou os impostos hoje cobrados da empresa privatizada cobrem esses subsídios? Não são estimativas fácies. Mas é função de nós economistas darmos pelo menos um chute. E daí tirar uma conclusão. Numa lista de emails a Mônica citou o livro os Maus Samaritanos (HA-JOON CHANG) no qual a idéia era de que ele não é contra, só diz que devemos privatizar a empresa certa, no momento certo, pelo preço certo e depois é preciso que se faça uma fiscalização. Por aí segue meu ponto de vista.
Para terminar (finalmente hein..rsrs) um país desenvolvido se caracteriza pelo fato de sua população em grande maioria ter uma condição de vida digna. Logo países como o Brasil, China e Índia, que ainda apresentam grandes populações ainda a margem desse acesso a uma vida melhor, a única saída para eles é crescer. O caso da China é o mais emblemático.
Faltou falar de muitas coisas ainda. Educação e Saneamento básico são, do meu ponto de vista, os principais gargalos a serem enfrentados agora no desenvolvimento brasileiro. Fica quem sabe para os próximos posts.
O Delfin Neto diz que “O Brasil é um país fadado ao crescimento”. Concordo com ele. Vamos e precisamos crescer, a perguntar é “como vamos crescer?” Para isso que temos que analisar as propostas futuras e modelos diferentes. E não ficar em um debate que ainda está bem pobre em termos programáticos.
Muuuito bom! O comentário no início foi pra mim, certo? hahahaha... Teria bastante argumentos pontuais, mas faço uma justificativa geral em relação ao tema que nos contrapõe. Acredito que podemos medir o resultado em termos do que ambos os programas se propunham. Não comparando um com o outro e sim, comparando-os com eles mesmos. Enfim, as circunstâncias são distitnas, concordo com a problemática das comparações, mas em meu ponto de vista, o governo Lula fez uma opção mais explícita com os objetivos do desenvolvimento do país sem desconsiderar as desigualdades sociais, enquanto o governo tucano fez uma opção pela modernização do país, que é diferente do desenvolvimento, furtadianamente falando. Mas enfim, independente disso, fico feliz por podermos travar um debate desta qualidade, que é claramente o que está em falta no Brasil!
ResponderExcluirHahah foi sim!!!!
ResponderExcluirconcordo com vc sobre a visão sobre os governos e sobre a comparação com ele mesmo!!Acho que é por aí mesmo, devemos comparar com eles mesmos, e daí apontar os acertos e erros!!A auto-crítica até aonde eu fui foi o máximo? e o que aprender com isso se faz necessária? parece que tds se consideram perfeitos em seus governos! Enfim, vlw por ler! é pra isso que enchi o seu saco!! hehehe